O que há por trás das piadas com o cantor Wesley Safadão?

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Wesley Safadão

Wesley Oliveira da Silva, mais conhecido como Wesley Safadão, é atualmente um dos cantores de maior sucesso do Brasil. Os números do forrozeiro cearense são impressionantes: são em média 25 shows por mês (em Dezembro foram 26), quase todos com ingressos esgotados, o 2º cachê mais caro do Brasil (500 mil reais), ficando atrás somente da dupla sertaneja Jorge & Mateus (550 mil reais), parcerias com diversos artistas, como Ivete Sangalo e Marcos e Belutti, músicas em 1º lugar nas rádios de todo o país, convites inesgotáveis para programas de TV e um dos nomes mais comentados na internet em 2015. Aliás, comentado até demais.

O sucesso de Safadão rendeu nos últimos meses uma enxurrada de piadas e “memes” envolvendo o nome e/ou a imagem do cantor. Hora falam dos seus longos cabelos, hora do seu nome artístico, hora de suas músicas. Algumas piadas, principalmente as que se referem ao apelido “Safadão”, são naturais, afinal, é de fato hilário um cantor com essa alcunha. Outras, no entanto, carregam consigo, ainda que implicitamente, fatores que desrespeitam não só a figura do cantor, mas também todo o estilo musical e a cultura que ele representa.

Piadas, via de regra, são feitas com coisas que tradicionalmente são passíveis de ridicularização e podem levar embutidos preconceitos culturalmente e historicamente enraizados no imaginário popular. Por exemplo, quando se faz piadas que envolvem a homossexualidade como tema, está implícito que ser gay é algo jocoso ou ofensivo, logo, carregam a homofobia como estrutura daquilo que faz rir. E com muitas das piadas com Wesley Safadão não é diferente.

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Wesley Safadão

Não raramente é comum ver nos comentários dos memes frases como “quem é esse?”, “nunca ouvi”. É óbvio que ninguém é obrigado a conhecer qualquer artista, no entanto, nos últimos tempos, fingir desconhecimento de algo que é popular, seja uma música, uma novela ou um filme, virou, para alguns, sinônimo de inteligência, erudição e sofisticação de quem pretensamente só consome cultura de “qualidade”. Ai está embutida uma falsa ideia de uma pirâmide hierárquica cultural, neste caso, musical. Estes comentários geralmente estão presentes em imagens que questionam, de forma cômica, o sucesso de Safadão e atribuem ao forró, estilo musical do cantor, uma pobreza musical que seria, em tom de lamento, “a cara” do povo brasileiro. Nada mais equivocado.

Primeiro, não há hierarquia quando se trata de cultura. Há muito tempo a antropologia já desmistificou a ideia de evolucionismo cultural, ou seja, a ideia de que a cultura evolui com o tempo e de que há culturas superiores a outras. O mesmo se dá com a música. Não há motivos plausíveis para afirmar que o forró de Wesley Safadão é inferior a MPB de Caetano Veloso ou ao rock dos Paralamas do Sucesso. São músicas diferentes, com estruturas diferentes e podem até ter objetivos diferentes, mas podem, também, agradar ao mesmo público. Eu, por exemplo, escuto os 3 artistas citados acima, por que não?

Segundo, atribuir uma pobreza musical ao forró é desconhecer toda a complexa rede de fatores que formam o ritmo. Ainda que o som se distancie do tradicional forró pé de serra e tenha elementos eletrônicos, a riqueza e sucesso deste tipo de forró são inquestionáveis. Basta vir a qualquer Estado do Nordeste durante as festas juninas e presenciar shows de bandas como Aviões do Forró, Simone e Simaria, Saia Rodada, Calcinha Preta e claro, do próprio Wesley Safadão. Se vier, cuidado, não tire os pés do chão, vai ser difícil coloca-los novamente no mesmo lugar, tamanha é a lotação destes shows.

O fato é que o estrondoso sucesso de um cantor nordestino parece incomodar aqueles que ainda não conseguem assimilar uma das maiores riquezas deste enorme país: a diversidade de seu povo e de sua música. Não há um Brasil, há vários Brasis que se manifestam das mais diversas formas. O forró e a alegria de Safadão é uma delas. É claro que isso não quer dizer que a música de Safadão é inquestionável, não. Pode-se questionar diversos elementos. Mas há uma grande diferença entre questionar e ridicularizar. Correndo o risco de ser taxado de “politicamente correto”, afirmo que há sim limites para a piada.

O que parece não haver limites é o sucesso de Safadão e o forró do nordeste brasileiro que, á margem dos que insistem em não reconhecer, segue levando alegria há milhões e milhões de brasileiros.

VAI SAFADÃO!!!!

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