Cabral recebeu R$ 50,5 milhões só por obras da Linha 4 do metrô, diz delator

Benedicto Junior contou que existia conta para pagamentos do dia a dia das obras: ‘churrascos’ e ‘coisas foras da realidade mundana’. Outro delator afirma que Cabral exigiu entrada da Delta no consórcio do Maracanã. Defesa diz que ex-governador se manifestará na Justiça.

Na quinta-feira (13), o G1 publicou o vídeo em que o ex-executivo da Odebrecht Benedicto Junior diz, em depoimento, que pagou R$ 120 milhões ao ex-governador do Rio Sérgio Cabral e ao atual governador, Luiz Fernando Pezão. Em um outro trecho da delação, o delator contou que, só pelo contrato da Linha 4 do metrô, Cabral recebeu mais de R$ 50,5 milhões de propina.

“Ao longo do processo, o governador me procurou e disse: ‘Olha, queria que a gente voltasse a discutir novamente que através desses contratos fossem feitos pagamentos’. Ele voltava com a conversa dos 5%. E eu sempre dizendo: ‘Paguei R$ 11 milhões pra entrar nesse negócio. Paguei pro privado. Que conta que venha a fazer para ajudar, posso ajudar, mas não posso ser tratado com 5%, que é o que um prestador de serviço faz aqui’. Encontramos no nosso sistema pagamentos da monta de R$ 50,5 milhões pro governador Sérgio Cabral dentro do metrô, Linha 4 no Rio de Janeiro, pagamentos ilícitos feitos através de caixa dois da Odebrecht.”

O delator disse que, dentro dos pagamentos da Odebrecht, existia um conta chamada “local”, que servia para pagamentos do dia a dia das obras do metrô, como “churrascos”. “Algumas coisas fora da realidade mundana, que a gente chamava de custos locais, do dia a dia”, disse.

Benedicto delatou também como foi feita a divisão entre as empresas que formariam o consórcio da Linha 4 do metrô.

“Fiz um pedido ao governador Sérgio Cabral se ele poderia ter uma conversa com alguém da Queiroz Galvão para que ela não exercesse, e que eu entrasse no consórcio. Eu não perguntei, não sei se ele fez o pedido, mas a verdade é que a Queiroz permitiu que eu adquirisse a participação da Constran e, a partir desse momento, a Odebrecht passou a ser sócia da concessionária (…) Um fato importante desta empreitada foi que o governador Sérgio Cabral chamou as três empresas que estavam à frente, Carioca, Queirzo e Odebrecht, e fez um pedido para que nós nos preparássemos para aceitar mais três construtores, nominalmente: Andrade Gutierrez, a Delta e a OAS. Como era um pedido, nós não recusamos de partida, passamos a discutir o que fazer. Entendíamos, com clareza, que a OAS tinha uma lógica, ela era dona do Metro Rio, ela ia passar a ser o investidor privado que ia cuidar da operação, a Andrade agregava valor, era uma empresa que tinha capacidade construtiva. Então, elas eram bem-vindas e, obviamente, restava um problema. Aceitar a entrada da Delta naquele momento era passar para a Delta uma capacitação de ser executora de metrô dali para a frente. E, por mais que a gente tivese algum respeito pela Delta, pelo Fernando [Cavendish], independente da relação pessoal que ele tinha com o governador, essa era uma coisa que o mercado não ia aceitar. A verdade é que criou-se um mal-estar.”

 Marcos Vidigal, outro ex-executivo da Odebrecht, delatou como foi costurada pelo ex-governador sérgio cabral a participação da empreiteira delta no consórcio responsável pelas obras no maracanã./ segundo marcos vidigal, sérgio cabral determinou que fosse dada uma fatia de trinta por cento à construtora delta, de fernando cavendish

o Junior me chamou no escritório dele e me falou que a Delta tbem iria participar do consórcio. Estranhei porque a gente já estava com a Andrade. Indaguei porque e ele falou que era uma determinação política do governador.

Pergunta: Qual governador que era na época?

Vidigal: “Governador Sérgio Cabral. Era uma questão política. O Sérgio Cabral havia solicitado a entrada da Delta com uma participação de 30%.

Pergunta: Antes de sair o edital, havia uma primeira composição de consórcios: Odebrecht, 70% e Andrade, 30%. E antes mesmo de sair do edital, isso foi mudado para que houvesse a inclusão da Delta? Como ficou a composição do consórcio com a entrada da Delta?

Vidigal: “A partir daí, como nós tinhamos só 70% e 30% ficou reservado para a Delta, então a Odebrecht ficou com 49% e a Andrade Gutierrez ficou com 21%. Então, o consórcio ficou: Odebrecht, 49%, Delta, 30% e Andrade Gutierrez, 21%.”

Pergunta: O senhor se recorda a data mais ou menos que houve a inclusão da Delta ou que o Benedicto Junior disse isso para o senhor?

Vidigal: “Foi um pouco antes da audiencia publica do Maracanã.”

Outras obras

Segundo o delator, a propina e o dinheiro de caixa dois eram para a campanha eleitoral de 2014. Em troca, segundo Benedicto Junior, a Odebrecht ganhou “contratos para diversas obras”. Entre elas, o PAC das Favelas do Alemão, o Arco Metropolitano, a Linha 4 e a reforma do Maracanã para a Copa do Mundo.

O depoimento integra o rol de 77 acordos firmados com o Ministério Público Federal no âmbito da Operação Lava Jato. Segundo o delator, R$ 94 milhões teriam sido pagos a Cabral e outros R$ 20,3 milhões a Pezão. Além disso, a empresa também teria repassado US$ 1 milhão (cerca de R$ 3,1 milhões) ao marqueteiro do atual governador.

De acordo com Silva Júnior, os valores teriam sido “alocados” de despesas dos principais empreendimentos no Rio dos últimos anos. Entre eles, a Linha 4 do Metrô, que liga a Zona Sul à Barra da Tijuca e que foi inaugurado antes dos Jogos Olímpicos de 2016. O Maracanã, reformado para a Copa do Mundo de 2014, também sustentou os repasses.

“Eu tenho aqui, fiz uma lista para a gente. [Os pagamentos] geraram contratos onde nós alocamos as despesas, o parque das favelas, no caso específico, o contrato do Alemão, o acordo metropolitano, metrô linha quatro, Maracanã para a Copa do Mundo. A estação multimodal do Maracanã, e tem R$ 2,1 milhões em projetos menores”, declarou o executivo da empreiteira.

Conforme mostrou o G1, Silva Júnior também disse que Cabral recebeu R$ 15 milhões da empresa entre 2006 e 2007. Inicialmente, foi feito um repasse de R$ 3 milhões para a campanha de 2006. Eleito, Cabral teria pedido “remanescentes da campanha”, entregues numa mesada de R$ 1 milhão por 12 meses.

As vantagens indevidas da Odebrecht, segundo a delação, seriam para favorecer os projetos de infraestrutura da empresa no Estado. A distribuição, diz Benedicto, teria sido feita com o auxílio do ex-secretário de Governo Wilson Carlos Cordeiro, preso na Operação Calicute, e os assessores Pedro Ramos de Miranda e Maria Auxiliadora Pereira Carneiro.

Esta não é a primeira denúncia contra Cabral. De acordo com o MPF, houve desvios em “todas as áreas” durante seu governo. Para a obra do Metrô, teriam sido desviados R$ 36 milhões. Na saúde, R$ 300 milhões. Outros R$ 250 milhões desviados dos cofres públicos foram devolvidos.

O que dizem Pezão e Cabral?

A Defesa de Cabral diz que só vai se manifestar na Justiça.

O governador afirma que “nunca recebeu recursos ilícitos e jamais teve conta no exterior”. Segundo Pezão, “as doações de campanha foram feitas de acordo com a Justiça Eleitoral”.

g1

15/04/2017