Zeca Pagodinho, símbolo da alegria carioca, diz estar muito triste

Doença de amigos, como Arlindo Cruz, corrupção e situação caótica do Rio têm baixado o astral do sambista

A alegria carioca sempre teve em Zeca Pagodinho seu embaixador. Mas Zeca está visivelmente triste. Num papo em tom de revolta, ele fala que não havia clima para fazer, neste domingo, festa para São Jorge, de quem é devoto. A corrupção no Brasil, e mais ainda a situação caótica do Rio de Janeiro, têm abalado seriamente o astral do sambista e são assuntos agora recorrentes. De bermuda jeans, chinelos e uma camiseta com o santo guerreiro, em sua cobertura na Barra, ele revela ainda uma profunda tristeza por causa de amigos doentes. A todo momento ele se lembra, emocionado, de Arlindo Cruz, internado em estado grave no CTI da Casa de Saúde São José. Em 2013, a pesquisa “O carioca e a felicidade”, realizado pela agência Quê Comunicação e pela Casa 7 Núcleo de Pesquisa com exclusividade para O GLOBO, mostrou que para o carioca Zeca é a personficação da felicidade.

– O Rio de Janeiro nessa bagunça que está, nessa crise que abalou todo mundo… E muitos amigos meus doentes, como Arlindo, Luiz Melodia, Almir Guineto… Não estamos em clima de festa – resume um dos maiores festeiros da cidade, revelando estar “muito triste”. – Eu gosto mais de ficar no meu canto (no Dia de São Jorge). Tem muita gente que faz as coisas para São Jorge e, na hora de orar para o santo, de saber das coisas do santo, não sabe. Só faz porque é festa, como se fosse carnaval. Não acho legal.

Em vez de comemorar o dia do santo guerreiro com a sua tradicional feijoada, ele preferiu ficar recolhido em casa, rezando.

– Também parei de fazer festa porque era uma disputa, só faltavam me matar. Tinha um abadá, e falsificaram um monte para entrar na festa. Era uma camisa bordada, bonita. Nem eu tenho a original, porque levaram.

Zeca é fã das novelas antigas que passam no canal Viva, e a conversa só flui depois que acaba mais um capítulo de “A gata comeu”. Com o seu copinho de cerveja, sentado à beira da piscina com vista para o mar, ele lembra de momentos vividos com Arlindo antes da fama, quando rodavam os morros bebendo e cantando. Conta que os dois já fizeram muita música juntos, mas que várias estão só na cabeça de Arlindo, cuja família também tem se apegado ao cavaleiro da Capadócia – ontem, seus familiares dedicaram uma missão a São Jorge em Vargem Grande. Ao santo, Zeca pediu saúde para ele e os amigos e que também o Brasil e o Rio virem a página atual.

Ele recorre a São Jorge para que os corruptos brasileiros sejam presos (“haja cadeia!”):

– Eu não costumo prometer nada (ao santo). Eu acho que cada um tem o que merece. Eu só peço que me dê força para carregar a minha cruz e que dê paz ao Brasil, colocando os ladrões na cadeia. E não estou falando de ladrãozinho, não. São ladrões mesmo, que acabaram com o Brasil e o Rio de Janeiro. Peço que o Rio volte a ser aquele Rio alegre e feliz, onde você podia passear por qualquer lugar e cantar samba nos morros.

No meio da conversa, Zeca enche um copo de cerveja para o santo:

– Santo só toma um corpo. Senão, quem vai cuidar de mim?

E ele mostra um cantinho em casa quase secreto, onde guarda imagens de São Jorge e de Ogum e de outros santos, como São Gonçalo, “padroeiro dos bêbados e das piranhas”, como explica Zeca . Das canções dedicadas ao nobre guerreiro, “Ogum”, de Claudemir e Marquinho PQD, é a que mais o emociona. Nos shows de Zeca, na hora de “Ogum” o cenário é de São Jorge.

– Ele é o santo dos sambistas, dos malandros, dos bicheiros, do jogador de futebol. Todo mundo tem um São Jorge. Talvez porque ele seja da noite, da lua, dos boêmios… A gente está na rua e sempre diz “ai, meu São Jorge” – diz ele, devoto desde criancinha. – Antes não tinha essa babaquice de quem não é da igreja é do diabo. Minha mulher é evangélica, vai para a rua distribuir comigo doces em São Cosme e Damião. Eu fui criado em terreiro, minha avó era rezadeira, e tinha o domingo na igreja. A gente não ia a médico: doente ia ao terreiro. Ventre virado ou verme, tomava banho de ervas. Quando ia fazer prova, tomava banho, acendia vela. Na minha família, todo mundo gostava de São Jorge. Mas quem abraçou a causa mesmo fui eu.

No fim da entrevista, Zeca conta, triste, que naquele dia precisou ajudar um amigo. E avalia que o mundo todo anda muito esquisito. Mas, contra o mal, a fé. Ele dá um abraço na equipe e, em resposta de que não pode deixar o baixo astral contaminá-lo, porque os cariocas precisam dele, Zeca diz, baixinho:

– Não vou deixar a peteca cair.

24/04/2017