Esse capítulo da minha vida se encerrou, diz juíza após condenação de invasor de fórum

Após a Justiça condenar na terça-feira (4) o vendedor Alfredo José dos Santos a 20 anos de prisão por tentativa de assassinato e cárcere privado, a vítima dele, a juíza Tatiane Moreira Lima, disse que poderá esquecer o drama que passou em 2016, quando o homem invadiu o Fórum do Butantã, na Zona Oeste de São Paulo, e ameaçou incendiá-la e matá-la enquanto a fez refém no gabinete dela.

“Agora posso dizer que esse capítulo da minha vida se encerrou”, disse a magistrada ao G1 sobre o caso ocorrido no dia 30 de março do ano passado, que teve repercussão após divulgação das imagens do crime em vídeos gravados por celular e compartilhados pelo aplicativo de celular WhatsApp.

Naquela ocasião, o vendedor manteve Tatiane refém por quase meia hora, tempo que usou para derramar combustível nele e nela. Para não acender um isqueiro sobre eles, o homem obrigou a juíza a gravar um vídeo no telefone para o filho dele, no qual dizia que o pai do menino era inocente.

Em 2016 Alfredo teria uma audiência com Tatiane na Vara da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher porque tinha sido acusado de nova agressão a ex-mulher. Por esse motivo, achava, equivocadamente, que era a magistrada quem tirou dele a guarda do menino. Na verdade, a decisão foi de outra juíza.

Vendedor

Obsessivo à época, o vendedor também obrigou policiais se seguranças do fórum a gravarem a cena. Ele só parou ao ser contido pelos agentes num momento de distração. Preso desde então, Alfredo começou a ser julgado na segunda-feira (3) no Fórum da Barra Funda, também na região Oeste da capital paulista.

A primeira pessoa a ser ouvida pelo juiz Adilson Paukoski Simoni, da 5ª Vara do Júri, foi Tatiane. Aos 37 anos, ela reafirmou em seu depoimento o que havia dito antes: que Alfredo a queimaria viva e a mataria se ela não gravasse o vídeo.

No segundo dia do julgamento, o vendedor de 38 anos foi interrogado e chorando alegou novamente que usou o isqueiro “só para assustar” e que não tinha “qualquer propósito homicida”, que pretendia apenas chamar a atenção da mídia, “da televisão”, com a intenção de “mostrar a verdade”.

Para a acusação, entretanto, o invasor do fórum só tinha um objetivo: planejava matar a juíza e se suicidar.

Juíza

Desde aquele dia, Tatiane difundiu dentro do próprio fórum onde foi atacada um programa de recuperação de homens que agridem mulheres, passou a fazer palestras sobre o tema.

“Quero agora focar nos projetos de trabalho e na minha família, virando essa página deste episódio triste. E esquecer o que passou”, disse a juíza, logo após saber da condenação de Alfredo.

Em março deste ano, quando o crime tinha completado um ano, ela chegou a dizer que apesar de ter perdoado seu agressor, tinha medo dele e entendia que ele deveria ser julgado e não ficar impune diante dos crimes que cometeu, servindo de exemplo para que outros homens pensem bem antes de baterem em mulheres.

No mesmo julgamento realizado nesta semana, Alfredo foi absolvido da acusação de tentativa de assassinato contra o vigia Crispiniano Márcio Oliveira de Almeida, que tentou impedir a invasão do homem ao Fórum do Butantã.

Em 2016, Alfredo havia invadido o local com uma mochila, munido com gasolina, isqueiro, um capacete com a inscrição ‘inocente’ e uma roupa com os dizeres ‘fraude processual’. Para chegar até a sala da juíza, o vendedor jogou um ‘artefato explosivo’ na direção do vigilante.

Acusação e defesa

O G1 não conseguiu localizar o promotor Rogério Leão Zagallo para comentar a decisão da Justiça, mas apurou que o Ministério Público (MP) irá recorrer contra a absolvição de Alfredo da acusação de ter tentado matar o vigia.

A reportagem também não encontrou os advogados Marcello Primo Muccio e Damilton Lima de Oliveira Filho, que defendem o vendedor, para saber qual a posição deles após a condenação de Alfredo. A defesa deverá recorrer da condenação do cliente.

Como respondia por duas tentativas de homicídio (contra a magistrada e o vigilante), crime doloso contra a vida, Alfredo foi julgado por um júri popular, formado por sete pessoas da sociedade. O vendedor ainda foi acusado de cárcere privado de Tatiane.

Coube aos jurados decidirem por votação secreta que Alfredo era culpado pela tentativa de assassinato e cárcere privado da juíza, mas inocente da acusação de tentar matar o vigilante.

Pena e prisão

O tempo da pena de Alfredo foi dado pelo juiz Adilson, que estipulou 16 anos e 8 meses de prisão pela tentativa de homicídio contra Tatiane e 3 anos e 4 meses pelo cárcere da magistrada.

Segundo a assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça (TJ) de São Paulo, em sua decisão de aplicar a sentença a partir da decisão dos jurados, ele destacou ‘a personalidade extremamente perigosa do acusado, que atentou contra a vida de uma pessoa que simplesmente estava trabalhando, se utilizando de material altamente incendiário, em um prédio público em horário onde transitavam inúmeras pessoas, não só juízes.’

Ainda de acordo com a comunicação do TJ, ‘o réu deverá iniciar o cumprimento em regime fechado, sem direito de recorrer da sentença em liberdade.’ Alfredo, que estava em prisão preventiva em Tremembé, interior de São Paulo, deverá permanecer no mesmo local.

Com curso técnico em química e experiência numa confeitaria, o condenado já teve passagens anteriores pela polícia por outros crimes de menor potencial ofensivo.

05/07/2017